terça-feira, 27 de março de 2012

Junco


Antes mesmo de sua publicação em livro, Junco ganhou de alguns de seus leitores um epíteto — “a máquina do mundo cão” — que parece difícil de descolar desse conjunto de poemas em que Nuno Ramos vem trabalhando nos últimos catorze anos. Não é preciso adivinhar a referência à busca do sentido do mundo, à “total explicação da vida” que espantosamente se abre aos olhos de um caminhante solitário, ainda que para se recolher, logo em seguida, e sem desfazer o enigma, como no poema de Drummond. A máquina do mundo se expõe diretamente aí em nota e em recortes brevíssimos, encravados nos textos. E se oferece, ainda, como cena primordial — no meio do caminho da vida — que organiza a paisagem marítima infernal — praia, praia, praia, praia - na qual se opera um misto de junção e tensão figural, que estrutura, em via dupla, mas em mútua interferência, a série poética de Nuno Ramos, entre os restos de um cachorro morto largado no asfalto e os de um cadáver de árvore, junco jogado na areia. E também entre texto e fotografia — pois, ao lado da sucessão de refigurações de cão e junco, reitera-se literalmente, ao longo do livro, a exposição de imagens do tronco na beira do mar e do cachorro morto no chão.

A trama dupla, no entanto, se sugere o analógico, é para travá-lo em seguida. Mesmo que as fotos os apresentem em disposição quase idêntica, parecendo reforçar comparações, é impossível não ver a matéria diversa de que são feitos animal e caule.

Pois cão é cão e junco é planta. E mesmo que o caule se exponha como cão-lagarto, lambendo algas, e ao cão, no asfalto, se possa ver como junco, lenha, banha, planta, persiste a dissimetria. E é pela insistência nesse paralelismo, mas a distância, das imagens que Nuno Ramos se avizinha, em movimento largamente expansivo, do belíssimo jogo entre bala, relógio e lâmina, rea­lizado por João Cabral de Melo Neto em Uma faca só lâmina.

Acrescentando-se, assim, a um modo cindido de figuração (reduplicado, ainda, entre lágrima e onda) outra tensa articulação — entre o poema narrativo e a composição serial, e entre o formato circunflexo, expressivo, do rosto e o livro silencioso de areia com que se encerra o último poema.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Roland Barthes - uma biografia intelectual

O livro ROLAND BARTHES - Uma biografia intelectual, de Leda Tenório da Motta, a sair no dia 29 de novembro de 2011 pela Editora Iluminuras, é o primeiro trabalho individual de fôlego sobre este importante crítico literário e pensador da cultura contemporânea a ser publicado no Brasil.
Trata-se de um autor cuja obra monumental está hoje em plena reavaliação não só na França mas no mundo e que vem sendo, cada vez mais, celebrado como o expoente de sua geração.Não é dizer pouco quando se sabe que ele pertenceu à virada linguística de Claude Lévi-Strauss, Michel Foucault e Jacques Lacan, muito mais conhecidos entre nós.
Indo de O grau zero da escritura até os belos volumes que saem das derradeiras conferências feitas por Barthes no Collège de France, às vésperas de sua morte precoce, a pesquisadora dedica-se, particularmente, a assinalar o inesperado círculo virtuoso dos escritos barthesianos, ironicamente, em seu tempo, considerados superficiais e divagantes.
Articulando os conceitos sui generis de “grau zero” e “neutro”, com sua postulação de uma linguagem não-assertiva, que só a “escritura” poderia almejar, mostrar como desvendam um interessante cético contemporâneo, à altura de um Montaigne. Sem perder de vista esse fio condutor, o livro consagra todo um capítulo à apresentação do clássico volume Mitologias, corrosivo painel da indústria cultural francesa nos anos 1950 que, contrapondo-se às leituras marxistas “piedosas”, terminaria por consagrar um delicado modelo de análise interna das mídias, atenta ao trabalho dos signos. Reconstitui também a “briga” de Barthes com a Sorbonne em torno do modo de ler Racine, evento célebre na origem da “nouvelle critique”, propondo uma aproximação deste fascinante embate crítico com aquele existente no Brasil entre Haroldo de Campos e a USP. Por fim, à luz da crítica-escritura de Barthes, discute longamente o lugar e o papel do crítico hoje.

domingo, 25 de março de 2012

Curare

Entxeiwi. Com essa expressão, que se avizinha a “bom-dia”, Tikuein – apelido de José Luciano da Silva – ou Nhangoray (Mão Pelada), seu nome indígena, falecido em 2009 e um dos últimos falantes da língua Xetá, iniciava uma conversa com o espelho. Um rito oral com o outro do espelho que podemos dizer um exercício-limite, sintoma do desaparecimento dessa língua – do grupo dialetal guarani, no caso o mbyá, bem como outras da família linguística tupi-guarani – e efeito da dizimação da diversidade cultural a-histórica. Os Xetá, desde o início dos primeiros contatos, em fins do século XIX, ficaram reduzidos a seis indivíduos remanescentes. A soma dos indivíduos é menor que o número de nomes atribuídos à coletividade: Xetá, Héta, Aré, Botocudo, Sjeta, Notobotocudo, Ssetá, Bugre, Yvaparé, Chetá e Seta. São onze nomes coletivos para seis indivíduos que atualmente não convivem coletivamente.
Poucos meses após ter decidido que o informe desta fala de Nhangoray seria a pulsão do poema, tive a alegria de encontrar-me com Jerome Rothenberg, em Curitiba, em meados de 2007. Em rápidos três dias de convivência, o poeta e tradutor estadunidense, criador do conceito etnopoesia, deixou-me sinais estáveis de que a poesia é presença e ruído de fundo nas diversas relações culturais. “Nenhuma pessoa hoje é recém-nascida.
Nenhuma pessoa se acomodou apaticamente aos milhares de anos de sua história. Meça tudo pelo foguete Titan & pelo rádio transistor, & o mundo estará cheio de povos primitivos. Mas mude por uma vez a unidade de valor para o poema ou para o evento da dança ou do sonho (todas, claramente, situações artefatadas) & fica aparente o que todas estas pessoas têm feito todos esses anos com todo esse tempo nas mãos”, escreveu Rothenberg em “Pré- Face - Technicians of the Sacred” (Etnopoesia no milênio).
Este informe do rito oral de Nhangoray é presença extremosa em Curare desde as primeiras linhas e põe em ênfase as relações entre poesia e etnia. A medida é monstruosa – do informe ao disforme, e, estendidamente, às linhas de fuga que sugerem ao poema o aberto –, um modo de se chegar ao ethos poético ou a uma poética.
Posso dizer, além disso, que, recentemente, com a elaboração e exposição de uma etnoperformance chamada Carretel curare é que esse ethos delineou-se em seu movimento de retorno. O informe da fala de Nhangoray, presença na minha escrita-cosmogonia, escrita monstruosa, retorna à oralidade via espaço da performance.
Curare opera mais por uma força centrífuga do que centrípeta e descentra para não decifrar. “Não há mais sujeito-objeto, mas ‘brecha escancarada’ entre um e outro e, na brecha, o sujeito, o objeto são dissolvidos, há passagem, comunicação, mas não de um a outro: um e outro perderam a existência distinta” (Bataille). Assim, a expressão “entxeiwi/bom-dia”, pode ser uma variante livre do sentido “carpe diem” (Horácio), vulgarmente traduzido por “viver o dia”. Se o gesto “carpe diem” busca dizer o que se esgota no instante presente, uma expressão para o “viver o agora”, dizer “entxeiwi” ao espelho, em uma língua esquecida, pode nos abrir o sentido poético desta língua, sentido este que está em todas as línguas, momento em que não estão formalmente estruturadas como linguagens de poder (Blanchot). É neste lugar, lugar também da tradução, que não é começo nem fim, lugar olvidado, silencioso, lugar de ausência que Curare – “brecha escancarada” – se relaciona incessantemente. E se recorro ao carpe diem, antes de evocá-lo formalmente, um épico, procuro dizê- lo no sentido que a expressão “entxeiwi” se me apresenta, ou seja, lugar de potência que tanto necessita o poema que não quer nunca se acabar, que é “continuum de variações crescentes”, nas palavras de Arturo Carrera, em seu Noche y Día.

sábado, 24 de março de 2012

De santos e sábios

No primeiro dos ensaios reunidos neste livro, “Não se deve confiar nas aparências”, Joyce – quando muito jovem – reserva ao olho o papel de única exceção a essa máxima, apontando que ele “nos revela a culpa e a inocência, os vícios e as virtudes da alma”. Esse texto prematuro, cativante na feliz tradução a nossa língua, já sugere aspectos fundamentais da obra e da vida do gigantesco escritor irlandês, desenvolvida a partir de elementos como a culpa e o vício, a inocência e a virtude. De modo análogo ao olho por ele distinguido, seu olhar sobre a Irlanda, a vida e a arte desvela, em sua superfície (apesar da aparente pouca “profundidade” dos artigos) os fundamentos do autor, lançando luz sobre sua obra ficcional e poética.
Com este livro – organizado por destacados joycianos brasileiros que acumulam a incansável dedicação à tarefa de (bem) traduzir – Joyce parece estar mais presente, mais vivo entre nós, embora fôssemos, já, privilegiados pela existência de múltiplas traduções de sua ficção. Nestes ensaios: os aspectos políticos de sua obra (cuja existência foi, por vezes, negada) tornam-se evidentes, conforme comenta, em seu artigo no volume, Dirce Waltrick do Amarante; a visão crítica do escritor se mostra afiada – constitui-se “uma espécie de tribunal do qual nenhum contemporâneo sai ileso”, como afirma em seu estudo André Cechinel, para assinalar que esse aspecto esconde a indicação da trajetória literária do próprio autor; a teoria estética apresentada – depois ressurgida em sua ficção – já revela que “arte e vida confundem-se num mesmo todo” (no dizer de André); são identificáveis “temas, imagens, palavras, polêmicas” que integrariam Ulysses, prenunciando-se, na visão de Caetano Galindo, o “projeto” configurado pela obra ficcional de Joyce.

Quase desconsiderados no úl­ti­mo sé­culo, os escritos deste livro podem ajudar – como almeja Sérgio Medeiros – a revelar o “Joyce ‘ilícito’ do pós-modernismo” e a compreender o “grande barulho estético, e político,” produzido por Ulysses e Finnegans Wake. Alimentem esperanças os que entrarem.

terça-feira, 20 de março de 2012

Embrulho Líquido

Bianca Lafroy es un héroe o una heroína sobrerreal cuya impronta se lee como el negativo de cada poema, en una línea que desciende del argentino paulista Néstor Perlongher, tanto del poeta de “¿Por qué seremos tan hermosas?” como del autor del Negocio del Miché. Prolonga esa línea de exquisita in-definición, en que la impostura de una travesti es el recalco de un andrógino. Ya es hora de que los bordes entre lo masculino y lo femenino se derrumben, y aquí el oído de la poesía está dedicado a la fracción infinitesimal de un rompimiento de fronteras y de un pasaje, como en aquel verso del poeta venezolano Marco Antonio Ettedgui: “se me pasa de hombre a mujer, basta un parpadeo”. Y este parpadeo es el momento poético de Bianca, estupendo pero no requintado. Como una constelación, se van adhiriendo aquí fragmentos de textos imantados por este fenómeno, fragmentos al imán del pasaje a dos tiempos, a dos focos, un delicado equilibrio en que se está sin estar en los platillos del consabido sistema binario del género, más bien rompiendo la opresión y violencia de la matriz del género. En este sentido es un texto profético, una profecía del presente, la medida de una apertura de la sensibilidad, y el descubrimiento de lo que siempre estaba allí.