sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Trovadorismo



Designa-se por Trovadorismo o período que engloba a produção literária de Portugal durante seus primeiros séculos de existência (séc. XII ao XV). No âmbito da poesia, a tônica são mesmo as Cantigas em suas modalidades; enquanto a prosa apresenta as Novelas de Cavalaria.

Momento final da Idade Média na Península Ibérica, onde a cultura apresenta a religiosidade como elemento marcante.
A vida do homem medieval é totalmente norteada pelos valores religiosos e para a salvação da alma. O maior temor humano era a idéia do inferno que torna o ser medieval submisso à Igreja e seus representantes.
São comuns procissões, romarias, construção de templos religiosos, missas etc. A arte reflete, então, esse sentimento religioso em que tudo gira em torno de Deus. Por isso, essa época é chamada de Teocêntrica.
As relações sociais estão baseadas também na submissão aos senhores feudais. Estes eram os detentores da posse da terra, habitavam castelos e exerciam o poder absoluto sobre seus servos ou vassalos. Há bastante distanciamento entre as classes sociais, marcando bem a superioridade de uma sobre a outra.
O marco inicial do Trovadorismo data da primeira cantiga feita por Paio Soares Taveirós, provavelmente em 1198, entitulada Cantiga da Ribeirinha.



quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Região nordeste e a sua literatura

No Brasil a Literatura de Cordel teve seu destaque na região Nordeste entre os anos 30 e 50. Nos meados dos anos 40 aumentou em muito a procura por estes livretos, escritos em versos, sextilhas, septilhas ou décimas impressos em xilogravura. O conteúdo normalmente abrange o relato do dia-a-dia do sertanejo e a vida política do país. Os autores deste gênero de literatura são chamados cordelistas.

Três aspectos da literatura de cordel ressaltam a capacidade do Homem em buscar alternativas para expressar e divulgar a sua criatividade. Além de serem escritos em poesia narrativa, os livretos são impressos artesanalmente em xilogravura no qual a reprodução de imagens e textos se faz por meio de pranchas de madeira gravadas em relevo, tornando possível a impressão de forma simples e barata. E outro aspecto importante é o fato dos livretos serem divulgados e vendidos pendurados em varal de cordas o que deu origem ao nome Literatura de Cordel.

A origem desta forma de expressão tão peculiar é antiga e remete à Europa nos idos do século XV, mas precisamente Holanda e Alemanha. Apesar de serem escritos em prosa, alguns dos folhetos já apareciam em versos impressos em xilogravuras exatamente como ainda hoje, no nordeste brasileiro. Na Espanha, o mesmo tipo de literatura popular era chamado de “Pliegos Suletos” tendo mais tarde chegado a América Latina com o nome de “Hojas” e “Corridos”. Na França eram conhecidos como “Literature de Colportage” e eram mais difundidas no meio rural. Na Inglaterra folhetos relatavam acontecimentos históricos e tinham o nome de “Cocks” ou “Catchpennies”. Em Portugal, a partir do século VXII, circulavam em feiras as denominadas “Folhas soltas” ou “Volantes”.

Acredita-se que a Literatura de Cordel chegou ao Brasil no fim do século XIX trazida pelo colonizador luso. Os próprios autores confeccionavam os textos em formato 11x15 em papel jornal de baixa qualidade. Os livretos eram pendurados em barbantes e cantados em feiras e praças públicas, geralmente acompanhados por um músico.

Ainda hoje a literatura de Cordel mantém-se viva e bastante difundida no Brasil, apesar da tradição ter permanecido em sua maioria na região Nordeste. Vários escritores conceituados foram influenciados pela Literatura de Cordel entre eles, Ariano Suassuna, João Cabral de Melo Neto, José Lins do Rego e Guimarães Rosa.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Limite Branco

Por Caio Fernando Abreu, 1970


Confesso que não esperava muito, então, sem esperar muito, comecei a lê-lo e fui conhecendo um pouquinho do estilo de Caio F. É claro que não me embaso nesse único livro para pressupor o estilo do autor, pois, como Limite Branco foi a sua primeira publicação, a sua escrita ainda estava em formação e muito provavelmente mudaria nos anos seguintes. O livro nos conta a história de Maurício, que era filho único e que começou a ficar meio perturbado com a vinda de um irmão. A narrativa acompanha a trajetória de sua vida, desde criança, quando tem bastante admiração pelas pessoas até o seu envelhecer, quando começa a enxergar com mais realidade. Paralelamente, somos apresentados ao seu diário, no qual um Maurício de 19 anos vai contando como se sente em relação ao mundo em que vive e em relação às pessoas com quem convive.

Queria tanto dizer que eu gostei muito do livro. Não vou mentir: achei que Limite Branco é realmente maçante, sem muito a acrescentar a quem lê. Não é um grande livro nem é criado com base em acontecimentos aventurosos, de modo a entreter o leitor. Simplesmente, é uma série de pensamentos e idéias do autor, que foram postos ali sem uma intenção visível. Ficou muito evidente para mim que o autor se confunde facilmente com o narrador pelas partes em que o diário é mostrado. O dono do diário curiosamente tem a mesma idade que o autor tinha à época em que escreveu Limite Branco. Logo no início do livro, há uma carta escrita pelo próprio Caio F., na qual ele comenta o quanto “imaturo” era o seu livro, tendo ele composto o seu personagem numa indefinição sexual, temendo a repreensão da época. Ele mesmo assume ter composto o seu personagem assim, muito indeciso quanto à sua sexualidade – e penso que isso tenha sido uma forma de o autor, que depois assumiu sua homossexualidade, colocar no personagem aquilo que ele vivia.

Talvez o que tenha sido mais incômodo para mim foi o modo como o autor concebeu o seu relato. Ainda que não aventura, como citei acima, isso não seria problema e ainda assim o livro poderia ser bastante interessante. O problema reside no fato de que parece também não haver muita predisposição a uma análise mais psicológica, restando ao leitor apenas um série de palavras. Em alguns momentos, parece que um determinado acontecimento vai modificar a história, dando-lhe intensidade. Aproveito para comentar sobre o momento em que Maurício flagra o episódio sexual entre um casal – o modo como ele comenta sobre os dois dá a entender que entraremos intensamente em sua mente e que nós o descobriremos todo, desde o seu íntimo, passando por tudo que o aflige, até a sua camada mais exterior, na qual os desejos se evidenciam. Mas, como também comentei acima, a indefinição sexual do personagem se revela e o autor escapa à essa demonstração daquilo que o personagem é.

Acompanhar a evolução do personagem é realmente maçante. Mesmo mais velho, ele não consegue ter uma personalidade interessante, não conseguiu me atrair. Se há uma característica positiva no livro, eu asseguro que ela se revela num único momento, que é quando o personagem principal finalmente concebe que mesmo as pessoas que potencialmente viveram de modo não-alienado, como o seu primo Edu, acabam caindo no senso-comum e se tornam vítimas do tipo de vida do qual fugiam. Eis a crítica forte do livro, a qual considero muito válida, porque ela, embora também me pareça mal construída ao longo dessa obra, consegue desautomatizar um pouco daquilo que é clichê nesse romance, o qual eu definitivamente não recomendo.

Acredito que Caio Fernando Abreu possa ser um excelente escritor, mas definitivamente a sua força deve estar nos contos, porque esse romance é realmente incômodo. Não sei se posso ou não atribuir a culpa ao autor, pois, como ele mesmo admite no prefácio, era bem novo quando o escreveu e talvez lhe faltasse a experiência dos anos para ajudá-lo a compor uma obra marcante.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Elizabeth


 Confesso que esse filme nunca tinha me chamado a atenção e mesmo depois de vê-lo não senti muita densisdade nesse relato histórico sobre a ascensão de Elizabeth I, também conhecida como A Rainha Virgem.

Para começar, eu preciso dizer que é necessário um mínimo de conhecimento a respeito dos acontecimentos que dominavam a Inglaterra e a Europa naquele momento, que corresponde ao ano de 1554. O filme por si só não é capaz de transmitir tudo o que é preciso saber para compreender o porquê de tanto conflito. Abalada pela cisão religião, a Europa se encontrava em conflitos entre protestantes e católicos. Na Inglaterra, havia tanto uns como outros e, com o domínio de Mary, surgiu uma onda de "caça às bruxas", na qual os protestantes eram perseguidos impiedosamente a fim de "limpar" a Inglaterra. Sem herdeiro legítimo, a morte da Rainha Mary traria ao trono sua meia-irmã - filho do rei Henrique VIII com Ana Bolena -, Elizabeth, que era protestante. O que a Corte temia era que Elizabeth transformasse a Inglaterra numa nação protestante. Como instruções papais determinavam ser heresia quaisquer outras religiões que não a católica, o caos se instalou na Europa, fazendo com que nações se posicionassem contra outras nações, de religiões diferentes.

Óbvio que eu não poderia esperar muita História de um filme, afinal se o fizessem assim, provavelmente ele se tornaria bem maçante e comprido. Ficção foi necessário e omissões a eventos históricos também. Pelo menos, o filme focou-se naquela que foi uma das maiores preocupações dos momentos iniciais do reino elizabeteano: os confrontos religiosos. Outros eventos ainda são mostrados, mas não são bem esclarecidos, deixando o espectador em dúvida do porquê aquilo tem que ser daquele jeito. Um bom exemplo são as várias discussões sobre Elizabeth casar-se e gerar um herdeiro, para garantir o trono. Ainda que lógico, não fica bem explicado no filme o funcionamento disso e creio que fosse necessário maiores esclarecimentos a fim de que o filme atingisse também àqueles que não conhecem esse período da história inglesa. A ascensão da Igreja Anglicana também é mostrada de maneira muito sutil, sem a pompa que merecia. Depois de vermos conflitos religiosos o filme todo, o final apenas mostra Elizabeth intocável, sem esclarecer bem qual a decisão a respeito da religião.

As interpretações são boas, na minha opinião. Todos estão bem, mas não há nenhum grande momento para nenhum personagem. A indicação que Cate Blanchett recebeu certamente se deve às cenas em que ela ri, porque sua risada é o tempo todo muito espontânea. A princípio sutil, a Rainha vai se tornando mais forte - essa é a gradação da interpretação de Blanchett. No começo do filme, ela parece bem bonbinha, com olhares dispersos e imaginativos. Ao longo do filme, Cate deu o tom austero e decisivo à Elizabeth. Honestamente, não sei se eu a indicaria, mas, no máximo, haveria apenas uma indicação mesmo. Vale ressaltar que sua interpretação é mais intensa do que a de Gwyneth Paltrow, que acabou vencendo na categoria em que concorriam. Joseph Fiennes e Geoffrey Rush também estão presentes aqui, tal como estiveram em Shakespeare Apaixonado, e suas interpretações são comuns, sem grandes atrativos. O destaque vai mesmo para Blanchett.

As seis indicações que o filme recebeu não o sobrevalorizam. Mesmo que seja um pouco superficial quando ao roteiro, seus elementos técnicos são realmente impressionantes, como a direção de arte, os figurinos, a direção, fotografia, etc.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Cordel: patrimônio cultural brasileiro

AS HISTÓRIAS DO POVO DO SERTÃO

Literatura de cordel é a criação popular em verso, impressa artesanalmente em papel jornal e ilustrada a partir de xilogravuras, um método de escavação em uma prancha de madeira onde é passada a tinta e sobre a qual se coloca o papel a ser impresso. Chama-se “cordel” porque os folhetos são pendurados em cordões nas feiras livres do norte e nordeste do país. Texto e imagem mostram, de moto pitoresco, cômico ou trágico, casos verdadeiros ou fantásticos, moralidades que registram o pensamento do povo e que são também declamados pelos vendedores.
Os temas mais freqüentes no repertório do cordel são o cotidiano do homem comum, o cangaço, o amor, os castigos do céu, os mistérios, os crimes e a corrupção, as festas populares e os costumes. “Os grandes acontecimentos / desastre, chuva ou virada/ de um trem ou caminhão,/ incêndio numa morada/ ou morte de um personagem/ davam uma história traçada”.
J. Borges é um típico artista popular, sendo um dos maiores responsáveis pela difusão da arte de cordel. É reconhecido no país e no exterior como parte do patrimônio cultural brasileiro, por extrais texto e gravura da aspereza da vida e em seu trabalho como cronista das comunidades anônimas do nordeste brasileiro.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Cordel é expressão viva da cultura nordestina

Ao contrário do que se pensava, a tradição do cordel continua viva, e revela talentos raros preservados no interior

A cultura popular é um magnífico tesouro que brota da alma da nação nordestina. Abrange um elenco de manifestações que fazem parte do cotidiano do sertanejo que guarda no peito um verdadeiro relicário de valores expressivos, que vão se perpetuando pelas gerações, e alimentando a memória viva da nação. Uma das maiores expressões dessa cultura é a literatura de cordel, que enche de poesia os terreiros das casas sertanejas e, também, as feiras livres do interior.

O cordelista é um representante do povo, o repórter dos acontecimentos da vida no Nordeste do Brasil. Não há limite na escolha dos temas para a criação de um folheto. Pode narrar desde os feitos de Lampião, com até as "presepadas" de heróis como João Grilo ou Cancão de Fogo, uma história de amor ou acontecimentos importantes de interesse público.

A literatura de cordel é assim chamada, segundo pesquisa da Fundação Joaquim Nabuco, pela forma como são vendidos os folhetos, dependurados em barbantes (cordão), nas feiras, mercados, praças e bancas de jornal, principalmente das cidades do interior e nos subúrbios das grandes cidades.

Linguajar
Devido ao linguajar despreocupado, regionalizado e informal utilizado para a composição dos textos, essa modalidade de literatura nem sempre foi respeitada, e já houve até quem declarasse a morte do cordel. Ao contrário do que se previa, o cordel ganhou o mundo.

Os versos do Patativa do Assaré, por exemplo, passaram a ser estudados na Universidade de Sorbonne, na França. Os violeiros de ontem que eram vistos com certo preconceito, ganharam as ruas, as universidades e os teatros.

Ao longo deste tempo, além de mudanças temáticas, o cordel passa também por várias transformações no plano da forma. Nas capas, anteriormente ilustradas com clichês utilizados em jornais e revistas, passa-se a empregar cartões postais, fotografias de artistas de cinema, desenhos e xilogravuras.

Outros elementos tomados de empréstimo da imprensa escrita foram abandonados como, por exemplo, a divisão, seguindo o estilo dos folhetins, de uma mesma história em três diferentes folhetos. As histórias, por sua vez, diminuem de tamanho passando a predominar os folhetos de 8 ou 16 páginas sobre os de 32 ou 64 páginas.

Pesquisa
Acompanhando o processo de globalização e de abertura do modelo cultural, o cordel é estudado e pesquisado, com grande interesse, nos meios acadêmicos, debatido em ciclos literários e até mesmo em conferências mundiais.

De acordo com Ariano Suassuna, um estudioso do assunto, a literatura popular em versos do Nordeste brasileiro pode ser classificada nos seguintes ciclos: o heroico, o maravilhoso, o religioso ou moral, o satírico e o histórico. A região do Cariri, no Brasil, é o celeiro de grandes poetas cordelistas.

Entre os mais famosos podem ser citados os irmãos Bandeira (Pedro, João Chico e Daudeth Bandeiras), que aqui aportaram, trazendo na alma a fé no Padre Cícero e, no sangue, a veia poética do avô Manoel Galdino Bandeira, um dos maiores cantadores da viola do sertão paraibano.

Nas pegadas dos Bandeiras, surgiram outros valores que transformaram em poesias os programas de rádio das emissores caririenses, ou varando as madrugadas em desafios poéticos que ecoam nos pés de serra da região do Cariri.

"Com esta nova geração de poetas, a literatura popular está longe de desaparecer e continua aí para, talvez, ser uma primeira opção na luta pela difusão da leitura no Brasil", aposta o poeta João Bandeira de Caldas.

Jornalismo
O cordel tem uma estreita ligação com o jornalismo. Eram impressos nas mesmas impressoras dos jornais do passado. No início do século passado, quando os jornais não chegavam ao interior, o cordel ocupava o espaço dos jornais e emissoras de rádio. O cordelista era uma espécie de repórter itinerante que andava de feira em feira, levando à população os últimos acontecimentos da semana.

Notícia
Para que se tenha uma ideia dessa função jornalística, basta lembrar que, quando Getúlio Vargas morreu, um dos poetas de cordel mal ouviu a notícia pelo rádio, começou a escrever "A lamentável morte de Getúlio Vargas". Entregou os originais ao meio-dia e à tarde recebeu os primeiros exemplares. Vendeu 70 mil em 48 horas.

Outro assunto que teve grande repercussão foi "O trágico romance de Doca e Ângela Diniz". A "Carta do Satanás a Roberto Carlos" também teve grande sucesso, inspirado na música que dizia "E que tudo mais vá pro inferno!". Os folhetos de cordel tratam, de forma cômica e, de certa forma irônica, diversos temas como, por exemplo, seca, traição, violência, amor, desilusões, entre outros.


Fonte: http://diariodonordeste.globo.com