domingo, 9 de janeiro de 2011

José Saramago. A jangada de pedra


Evidentemente, não se pode esperar que Saramago escreva uma história simples. Mesmo que haja simplicidade na estrutura e no enredo, decerto não haverá nas entrelinhas. E é exatamente isso que acontece em A Jangada de Pedra, cuja narrativa discorre a respeito da separação da península ibérica do resto do continente europeu e das conseqüências disso. A somar, narra-se a viagem de quatro personagens rumo ao autoconhecimento.

O primeiro capítulo já é ilustrado com a imagem dos quatro personagens principais e dos acontecimentos incomuns que os levam a “causar a separação da península”. Ponho entre aspas porque em nenhum momento o autor evidencia que foram os quatro os responsáveis pelo evento geográfico. As suas ações são meio incomuns: Joana Carda riscou o chão com uma vara de negrilho e o risco feito jamais se apagou; José Anaiço viu-se cercado por estorninhos, que simplesmente não lhe abandonavam e ficavam voando ao seu redor; Pedro Orce levantou-se de uma cadeira, pisou o chão com força e sentiu-o tremer sob si; Joaquim Sassa, ao passar pela praia, viu uma pedra imensa e arremessou-a ao mar, fazendo-a ir muito além do que suas forças permitiam. Após esses eventos, acontecidos em concomitância, os Pirineus racharam-se e a península ibérica lançou-se ao mar.

Não posso simplesmente comentar as vertentes literárias dessa obra. Ainda que seja literatura, e exatamente por sê-la, o autor nos propõe uma análise bem mais do que a óbvia, na qual eu comentaria a respeito do desenvolvimento da história e da composição dos personagens. Definitivamente, A Jangada de Pedra é um livro de abordagem política. Saramago sempre defendeu o pensamento de que Portugal não tinha seu valor reconhecido pela Europa. Embora os portugueses tivessem ratificado a potência européia ao saírem mar afora na época das Grandes Navegações – e consequentemente conquistado riquezas para o seu continente –, atualmente não lhe respeitavam a participação política e econômica nas relações com o resto dos países europeus. Pela semelhança cultural e pelo momento político-histórico vivido pela Espanha na época em que o livro foi escrito (o ano era 1986; vale ressaltar que hoje o perfil do Estado espanhol mudou consideravelmente), a Europa via esse país tal como via Portugal. Aproveitando esse fato, Saramago reuniu uma série de dados e suposições para elaborar uma crítica feroz à atitude européia. Não nos restam dúvidas ao longo da obra de que a separação geográfica significa o afastamento político que há entre os países iberos e o resto do continente. O ato de vagar pelo mar é uma clara representação do modo como esses dois países buscam o lugar a que pertencem, o lugar onde encontrarão semelhanças culturais que lhe permitam uma identificação e autenticidade com suas próprias raízes – não é à toa que, ao final do romance, a ex-península, agora ilha, pára entre a África e a América, locais onde possuem colônias: lá se fala a mesma língua, têm-se costumes semelhantes.

Como obra literária, não posso criticar quase nada, afinal se trata de uma construção bastante elaborada. O único problema que eu encontro – e para o qual eu tenho argumento que o situa não exatamente como um problema – é o rápido envolvimento amoroso dos personagens, haja vista que tudo acontece muito rapidamente, sem o tempo necessário para que os romances se desenvolvam, ou que, pelo menos, os personagens se conheçam adequadamente. Não posso me esquecer, porém, de que não havia tempo: todos temiam a acelerada aproximação da jangada com os Açores, o que poderia significar a morte de muitos portugueses e espanhóis e definitivamente a extinção do arquipélago. Fora isso, todo o resto é válido.

A Jangada de Pedra é uma obra muito válida, que merece ser lida. Não apenas pelo seu contexto literário, mas principalmente pelo seu significado político e pela árdua crítica que Saramago faz à Europa e às grandes potências. Em alguns momentos, chega a reproduzir falas dos representantes dos Estados Unidos com uma perfeição inigualável, fazendo-nos quase crer que seja uma reprodução fiel de algum discurso já proferido antes. Não se furtem o prazer de lê-lo. Leiam-no, porém, se estiverem conscientes do que essa obra significa, porque o seu poder está justamente fora do universo literário.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A Hora da Estrela


A Hora da Estrela, por sua vez, é uma obra que eu considero muito válida para a nossa literatura e consiste numa das melhores obras da autora.

Sendo esse o penúltimo romance escrito por Clarice, ela faz questão de nos proporcionar uma análise crítica sobre a realidade cultural do nosso país e ainda proporciona uma excelente composição metalingüística, o que faz de seu livro um dos mais requeridos da literatura nacional. Analisá-lo não é fácil, devido as características muito bem elaboradas da escrita de Clarice Lispector. A sua obra conta com série de qualidades elogiáveis e até considero invejáveis, pois poucos autores conseguem – e poucos conseguiram – realizar uma obra com toda a grandiosidade desse seu livro, que foi o último a ser publicado enquanto a autora ainda estava viva.

Devido à fantástica metalinguagem do livro, somos confrontados com a história de uma alagoana chamada Macabéa, uma jovem datilógrafa “que às vezes sorri para os outros na rua”, mas “ninguém lhe responde ao sorriso porque nem ao menos a olham” (p. 22). A história dessa nordestina nos é narrada por Rodrigo S.M., narrador que se tortura por causa do relato que nos quer fazer, haja vista que a existência dessa jovem, sobre quem ele afirma conhecer pouco, lhe ofende e lhe perturba, pois ela, como ele mesmo descreve, “somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando. Na verdade – pra que mais do que isso? O seu viver é ralo” (p. 30).

Vale ressaltar que a grandiosidade da narrativa, em primeiro lugar, se encontra do afastamento do autor e do narrador. Ainda que quem escreva seja Clarice, há um segundo autor-narrador, que é também um personagem de Clarice. Pode-se dizer que o narrador, ainda que não participe efetivamente da história, é também personagem dela, já que é também uma criação, com emoções, sentimentos e personalidade. Depois, temos a relação entre o narrador-autor Rodrigo e a sua personagem, Macabéa. Não podemos afirmar precisamente que a personagem existe no plano da realidade do narrador, pois ele mesmo garante não saber exatamente tudo o que acontece e, ao mesmo tempo, sente-se mal por nos contar uma história tão simples, sem muitos atrativos. Ainda há o fator de que Macabéa lhe veio por outra inspiração – o narrador viu alguém na rua e essa pessoa lhe remeteu à nordestina sem rosto e sem vida que é Macabéa.

Há uma aproximação interessante entre o narrador e Macabéa e é exatamente essa aproximação que cria um paradoxo interessante nesse romance: ainda que ele lhe tenha afeto, eles pertencem a classes sociais muito diferentes e possuem estilos de vida diferentes, sendo ela um ardor na vida do narrador, pois a história dela, quanto mais perto dela ele se sente, mais culpado ele se sente. Ao narrar sua vida, o narrador apresenta uma série de falhas no sistema social. A personagem alagoana praticamente subsiste porque não tem informações suficientes para poder se questionar. Sem se perguntar, ela simplesmente acredita que sua vida tem que ser daquele jeito porque tem que ser assim – sem mais. A tia, que lhe aplicava cascudos sem motivos razoáveis, criou em Macabéa uma noção eterna de submissão e é assim que ela se sente – submissa a tudo: ao seu trabalho, ao seu namorado, à sua amiga Glória, à sua própria situação. Viver num quarto com outras quatro garotas não lhe incomoda, desde que tenha um rádio e possa ouvir informações que não entende, mas que julga importante conhecer. Isso mostra que a personagem foi condicionada ao não-discernimento: “[...] ‘Arrepende-te em Cristo e Ele te dará felicidade’. Então ela se arrependera. Como não sabia bem do que, arrependia-se toda e de tudo. O pastor também falava que a vingança é coisa infernal. Então ela não se vingava” (p. 45). Para Macabéa, basta crer, acreditar é o suficiente.

A obra de Clarice narra um Rio de Janeiro não muito bonito – nele vivem pessoas esteticamente feias, que não chama a atenção, que estão à margem da sociedade e que não sofrem porque não têm consciência do que é sofrer, haja vista que existem iludidas pelas mentiras sociais contadas a todo o momento. Chega a ser difícil compreender se o narrador se diferencia tanto dos personagens que ele narra, afinal, os personagens são ele também. Nos momentos finais, com o desfecho criado para Macabéa, ele assume que o mesmo que aconteceu a ela aconteceu a ele também – assume, portanto, que eles estão muito mais próximos do que realmente parece.

Assim, é difícil assegurar quem é real e quem não é nessa obra. Os personagens misturam-se às vezes e completam-se, somam-se em alguns momentos. Clarice cuidou para que sua obra se mostrasse como uma crítica, não apenas à sociedade, mas também à pessoa – o ser individual é criticado, principalmente quando ele necessita de outro para firmar-se como ser superior. De certo modo, é isso que acontece com Rodrigo, ao mesmo tempo em que ele narra e descreve Macabéa como algo por quem ele tem carinho e que, simultaneamente, lhe causa incômodo. A Hora da Estrela possui então vários elementos que apenas constituem uma obra elogiável e que merece ser lida. Aprecio o desenvolvimento filosófico-questionador desse romance e recomendo as pessoas que desejam ler uma obra intimista, na qual se conhecem bem todos os personagens – tanto é que a história da nordestina se inicia já no meio do livro, depois que o narrador demonstrou como é a sua personalidade. Considerando todos os aspectos da obra e a sua relevância literária, não deixo de admitir: A Hora da Estrela é um dos melhores livros nacionais.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Clarice Lispector (1920-1977)




De fato, a literatura de Clarice é universal porque traduz a condição humana, com seus vícios e virtudes. E com enorme competência narrativa: Clarice tem rara capacidade de registrar, em linguagem, com sutileza, densidade e ironia, detalhes que acabam traduzindo essa condição humana. Mas convém considerar que sua literatura é também datada e locada no Brasil. Macabéa (de A Hora da Estrela) remete ao povo judeu (macabeus), mas é uma alagoana pobre que tenta “melhorar de vida” no Rio de Janeiro. Essa situação é tipicamente brasileira. Sob esse aspecto, a literatura de Clarice constitui mais um capítulo da literatura brasileira depois do romance social dos anos 1930: com Clarice, o nordestino não só sai do sertão árido e seco, mas se retira do nordeste procurando sobreviver numa grande capital do sul do país.


De fato, essa é a tese de Benjamin Moser, que, no entanto, não se apóia em registro documental. Segundo Elisa Lispector, irmã de Clarice que era considerada o “baú” da família, porque contou a saga dos Lispector da Ucrânia para o Brasil e cuidava dos documentos familiares, a mãe sofreu “trauma” – ela não especifica se no sentido físico ou psicológico ou ambos – devido a violência causada por bolcheviques russos. De fato, na época, a região da Ucrânia onde moravam os Lispector foi assolada por pogroms, perseguições aos judeus, aliás, provocadas por várias facções políticas, não só por bolcheviques. Ainda segundo Elisa, a mãe sofria de “hemiplegia”, que é a paralisia de metade do corpo ou de parte dele, causada por lesão cerebral. Clarice conviveu com a paralisia, que era progressiva, até os seus quase 10 anos, quando a mãe faleceu. E numa crônica conta que teria sido concebida para salvar a mãe e que a cura não aconteceu. É provável que tais fatos – a hemiplegia, a cura que não aconteceu e a morte da mãe, quando Clarice era criança – tenham marcado a escritora, tal como outros episódios, ao longo de sua vida, também podem tê-la influenciado a escrever como escreveu.


É difícil determinar em que medida uma vida influencia uma obra. As experiências de vida aparecem, na obra, mesmo em textos autobiográficos, já misturadas com o imaginário do autor. Há invenção sempre. No caso de Clarice, por exemplo, o fato de pertencer a uma família judia emigrante pode tê-la feito sentir em constante “estado de exílio”, alguém que não pertence a lugar nenhum e vivencia uma espécie de estranhamento diante dos lugares e pessoas. Mas há que se considerar também que esse estranhamento pode ser, pelo menos em parte, manifestação de um modo “especial” de o artista “enxergar” o mundo, mediante uma desautomatização, por vezes, crítica, do que o rodeia, o que permite criar sentidos inusitados.
Clarice Lispector teria sido escritora se não tivesse vindo para o Brasil e conhecido o português?
Essa é uma pergunta que a própria Clarice se faz. E é um tipo de pergunta para a qual não se tem resposta precisa, apenas hipóteses.
Nas fotografias, é raro ver Clarice rindo. Ela era uma mulher séria ou compunha uma personagem para apresentar aos leitores?
Para fazer o livro Clarice Fotobiografia, vi centenas de fotos de Clarice só e em grupo. Mas não vi mais do que duas ou três em que Clarice aparece com “sorriso largo”. Nas demais, tal como sua personagem Ana, do conto “Amor”, nada mais que um sorriso de “meia satisfação”. Na única imagem ao vivo de que se tem notícia, a da entrevista de Clarice na TV Cultura, ela aparece séria demais, angustiada demais. Pena que seja esse o único registro gravado em som e imagem, pois seus amigos também dizem que ela era alegre e divertida. Mas uma das características de sua personalidade era a da mudança brusca de humor: em reuniões sociais, quando, de repente, resolvia sair e voltar para casa, nada havia que a fizesse mudar de ideia. O perigo é mitificar Clarice: atribuir a Clarice atitudes singulares, que, na realidade, também são nossas. Clarice percebeu isso e, em entrevista na TV Cultura, criticou pessoas que julgavam ser importante qualquer bobagem que ela dizia. Outro perigo é o de imaginar fatos “reais” referentes à sua vida, que surgem na tentativa de preencher lacunas. Nesse caso, Clarice é veemente. Numa crônica que leva o título de “Esclarecimentos. Explicação de uma vez por todas”, em que aborda justamente a questão do seu nascimento, afirma: “Não há simplesmente mistério que justifique mitos, lamento muito.”
Certa vez, a senhora disse que o olhar de Clarice tinha “um ar sedutor, instigante e um tom de desafio”.
Sim. Creio que tem. Se observar as fotos de Clarice criança verá que, em sua grande maioria, ela olha diretamente para a câmera, ou seja, para o fotógrafo. Não desvia o olhar. Essa marca persiste, ao longo da sua vida, até se transformar no olhar fulminante das fotos tiradas por Alair Gomes, no início dos anos 1960. Reconheço nesse olhar uma semelhança com o olhar de seu narrador que encara o “outro” (que pode ser inclusive cada um de nós, leitores) de modo direto, como se o enfrentasse, tal como uma personagem sua, que se encontra diante de um búfalo, na procura veemente de experimentar o ódio, num dos contos de Laços de Família.
Na data em que se comemoram os 90 anos de nascimento de Clarice Lispector, é inevitável examinar o legado que a escritora deixou. Qual, na sua opinião, é a sua herança?
Clarice trouxe para a literatura brasileira um novo modo de contar histórias, ao mergulhar no interior das personagens para acompanhar, a par e passo, cada detalhe, cada gesto dessa intimidade, com seus anseios, desejos, ódios, sensações, afetos, medos. E tudo isso a partir de uma estratégia narrativa muito esperta, de seduzir o leitor aos poucos, puxando sua atenção a partir do relato de fatos bem banais, de modo a lhe dar a sensação de que nada de importante estaria acontecendo ali, na história, mas, ao mesmo tempo, alimentando a sua inquietação com questionamentos instigantes e perturbadores, levando-o a uma nova “descoberta do mundo”. O interessante é que praticava tais gêneros desmontando-os internamente, minando o terreno da narrativa de conceitos e recursos que, de certa forma, colocavam em xeque o próprio gênero que praticava.