segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A Paixão Segundo G.H.



Clarice Lispector é um grande nome da nossa cultura literária e eu realmente nunca me dediquei o suficiente às obras dela. Li um livro de contos e também o livro A Hora da Estrela, sem jamais ter lido qualquer outro texto dessa escritora. Lispector se diferenciou quanto à sua literatura pelo caráter aproximativo e introspectivo de suas personagens, tornando-as próximas do leitor, que, segundo um colega meu, “facilmente se identifica com o narrador ou com o personagem central”.


Esse romance da autora tem um forte tom de crônica, principalmente no que diz respeito ao modo como a história foi concebida. Eu poderia começar a resenha apresentando a sinopse clássica do livro, que é aquela na qual a pessoa que leu o define sua história como sendo a de uma mulher que, diante de uma tarefa simples do cotidiano – limpar um quarto –, se entrega a uma série de questionamentos sobre a vida e sobre os eventos circunstantes a ela. Poderia também dizer aquilo que eu acho que resume melhor o livro; sinceramente, prefiro fazê-lo: A Paixão Segundo G. H. é um livro sem qualquer enredo, sem história, sem personagem, sem barata.



Honestamente, acho que o grande problema do livro se encontra fora dele: o problema se encontra nas pessoas. O mesmo que acontece a esse romance acontece, por exemplo, ao filme Casablanca. Explico: em algum momento, tornou-se culto ter visto e ter gostado de Casablanca; desse modo, quem não o viu diz que o viu e quem o viu e não gostou diz que gostou. Algo semelhante envolve essa obra de Clarice. Não sei por que, mas se tornou proibido dizer “não gosto das obras dela” – lê-la assumiu um caráter tão culto (e por que não dizer opressivo?) que impossibilitou as pessoas de expressar suas opiniões verdadeiras em relação ao que pensam sobre aquilo que lêem. O livro é tão absurdamente complicado que duvido que um terço de quem o leu conseguiu compreendê-lo em sua quase totalidade – como, então, todos podem adorá-lo? Minha resposta a essa pergunta é simples: não o compreenderam, não o adoram. Apenas foram condicionados a dizer que é um livro excelente. Não quero, com isso, desmerecer a opinião de quem o leu, o compreendeu e realmente gosta do livro – minha opinião de que essa seja uma obra ruim não é uma verdade universal. Creio que haja quem goste de A Paixão Segundo G. H.



G. H. é uma mulher confusa, uma mente muito turbulenta. Ela é tão cheia de pensamentos que, ao colocá-los para fora, a narrativa se torna interrupta, meio brusca, cheia de frases soltas. Compreendi perfeitamente quando um colega me disse que o livro é assim porque G. H. narra seus pensamentos e que as mudanças dinâmicas e as constantes retomadas de assuntos já passados representem o modo como a nossa mente funcione. Não acho, no entanto, que isso tenha resultado desse pensamento. Penso que Clarice Lispector simplesmente se limitou a escrever inconclusivamente, divagando e se repetindo, apresentando informações desnecessárias e incômodas, já que não remetem a qualquer aspecto psicológico interessante de ser avaliado. Para mim, o perfil psicológico de G. H. é tão profundo quanto um pires e sua amplitude emocional é semelhante à de uma colher de chá – suas reflexões ilógicas sobre a sua realidade são extremamente cansativas, seus pensamentos são bem estranhos.



Não posso, porém, criticar o livro como se não houvesse parte da qual eu tenha gostado. Pouco antes de encontrar a barata, creio que haja o único momento em que a personagem é coerente e objetiva naquilo que pretender passar ao leitor. Quando, ao chegar ao quarto da empregada, descobre que a empregada já o havia limpado, G. H. passa por um momento de desapropriação: a casa, sente-a como se não fosse sua, pois a sua vontade, a vontade repentina de limpá-la, não fora respeitada. “Uma cólera inexplicável, mas que me vinha toda natural, me tomara: sentia uma imensa vontade de matar alguma coisa ali” ². Decerto, é o único bom momento do livro, pois é quando o leitor consegue se aproximar mesmo da personagem. Quando Clarice descreve a relação quase ausente estabelecida entre a personagem central e a sua empregada, eu pude finalmente gostar um pouquinho do romance. Um pouquinho, só um pouquinho.

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